26/01/2017

Em defesa da arte urbana nos muros

Um dos assuntos mais comentados deste começo de ano é a investida do novo prefeito de São Paulo, João Dória, contra a arte nos muros da cidade. Dória está encarando qualquer dessas intervenções, seja grafitti, seja pichação, como um mal a ser extirpado. A única coisa boa que vejo em investidas claras assim é que elas indignam a sociedade e acabam por mobilizar uma reação contrária. 

Infelizmente esta reação nunca, ou raramente, se verifica quando não há o correspondente alarde no apagar a arte mural urbana. E devo dizer que, pelo que constato, esta é a regra - a tendência é que inscrições ou pinturas em muros sejam logo cobertos por tinta, seja pelas prefeituras, seja pelos donos do imóvel. 

Aqui mesmo no blog já mencionei dois casos acontecidos em Macapá. Um deles foi o do muro na Praça Floriano Peixoto, pintado pela artista Carla Antunes, que acabou sendo o cenário do meu ensaio Todo Mundo Quer Amor, com a modelo Suelen Leão. Fizemos as fotos em outubro de 2014 e em menos de um mês o muro já havia sido descaracterizado. Outro foi de um dizer nos degraus próximos ao Trapiche Eliezer Levy , que também fotografei em 2014.

Estes dois casos evidentemente não são os únicos. Abaixo posto uma foto inédita no blog, que coloquei como capa de meu Facebook pessoal em 17 de abril de 2015, com uma inscrição pintada em um muro próximo à orla do rio Amazonas no bairro Santa Inês, em Macapá. Ela também hoje é apenas lembrança. 



Bom, me parece inegável que a ação contínua do poder público contra a arte urbana se funda num princípio burguês de que arte é uma produção feita sobre suportes transportáveis (ex: uma tela) e que só têm lugar, nas cidades, em espaços previamente designados (galerias, museus). Sob essa visão, tudo o que ousar vir a público fora dessa moldura não só mereceria proteção estatal (afinal, não é "arte"!) como ainda poderia (e vem sendo) simplesmente eliminada sem dó nem piedade - e no mais das vezes, sem o alarde de Dória, o que acaba resultando em pouca ou mesmo nenhuma manifestação contra essa ação de censura estatal.

De minha parte, devo dizer que considero inscrições e pinturas murais Arte, sim (se ainda não ficou claro - risos), e como fotógrafo procuro registrar sempre que isto me é possível, tanto na cidade onde moro, quanto naquelas que percorro em viagens. Entendo que, de alguma forma, os muros da cidade acabam sendo importantes espaços de manifestação do pensamento dos cidadãos, uma espécie de rede social a céu aberto. E, não sejamos ingênuos, é óbvio que o poder público também tem essa consciência - por isso quer muros que sejam menos Twitter e mais Snapchat!

A maioria das manifestações que tenho lido contra a cruzada de Dória é, no geral, de "leigos" em arte mural. Por isto considero interessante citar aqui trechos desse post feito pelo designer Gustavo Cortelazzi, de São Paulo, ao saber do apagamento de um mural seu na av. 23 de Maio. 

ONTEM MEU PINTADO DE 7 METROS FOI APAGADO NA 23 DE MAIO 😱 E o que eu acho disso? Acho que graffiti é assim mesmo!!!! É uma arte efêmera! Boa enquanto durou e que se renova!! É triste? É chato? É sim.. (...) Acho que a prefeitura está errando em respeito a esse lance de sair apagando tudo o que ver pela frente...(...) Mas por outro lado vejo uma amiga que estava a pelo menos 3 meses na fila de um Pré-Natal e sem esperança de ser atendida até o dia do parto...ser atendida em 2 (dois) dias após a posse do tal tão mal falado e playboy prefeito! Cara, eu quero meu povo feliz, educado e com saúde....e quando isso acontece eu nem ligo de ter que refazer toda semana as minhas artes!!!! (...)

Ah, sim, até agora não falei da foto que abre o post, também inédita no blog. Ela mostra uma inscrição numa parede que fotografei em outubro de 2013 em Belém e que resiste bravamente ao tempo, ainda se encontra lá no mesmo lugar - não vou nem dizer a rua que é pra não dar idéia pra ninguém apagar!
;D 


23/01/2017

A Semana nº 23

  • Na quarta, 18, o Diário do Amapá escolheu uma foto minha para ilustrar o texto da jornalista Mariléia Maciel, noticiando o início dos ensaios do Banzeiro do Brilho-de-Fogo, visando o desfile do próximo dia 4 de fevereiro, quando Macapá completa 259 anos. A foto foi feita no dia do primeiro desfile do Banzeiro, em 14 de dezembro de 2014, e mostra o músico Paulo Bastos (de camiseta vermelha) regendo os batuqueiros na Praça Floriano Peixoto; entre eles é possível reconhecer o cantor e compositor João Amorim (ao centro, de chapéu panamá). Publiquei-a originalmente na resenha do evento veiculada em 17 de dezembro de 2014 no blog Som do Norte. 


21/01/2017

Eu por Bruna Xavier



A autora dessa imagem é a modelo Bruna Xavier - que vocês já conhecem como nossa Modelo da Semana de 5 de agosto de 2016 e também como estrela do nosso Ensaio de Agosto.

A foto foi feita em agosto do ano passado, quando a visitei em Rondonópolis, onde ela então residia, para realizar o ensaio. 

Na foto, estou tomando o tererê, tradicional bebida mato-grossense que, assim como o chimarrão do meu Rio Grande do Sul, é feita a partir de uma infusão de erva-mate. Com a diferença que o chimarrão é tomado com água quente, e o tererê (também chamado teres), com água fria. 



15/01/2017

Balanço de 2016

Não sou muito afeito a publicar retrospectivas de final de ano (ou, neste caso, já no início do ano seguinte), mas entendo que em relação a 2016 é interessante tornar públicas reflexões que fiz sobre minha própria carreira no ano que acabou há duas semanas. Um dos fatores que me animou foi uma tendência de pensamento que circulou justamente no ano passado e que aconselhava a falar sobre nossos próprios fracassos - há quem preconize que você deva montar um currículo específico, apenas para relatar onde fracassou. Não chego a tanto.

Até porque não poderia, de forma alguma, definir meu 2016 como um fracasso, longe disso. Algumas coisas não saíram como o planejado - o que, evidentemente, acontece todos os anos. O legal de olhar em retrospectiva é perceber como, algumas vezes, esse "não dar certo" em determinadas ocasiões nos permite imprimir uma mudança de rumos, que não aconteceria se tudo tivesse seguido o script original. Essa longa mirada nos permite ver como as coisas vão se encaixando (ou não) e fazendo sentido (ou pelo menos eu entendo assim, ok?).

Antes de falar de 2016, um breve compacto de 2015 que vai ajudar a entender o porquê do uso da palavra fracasso ali acima. Na real, preciso recuar um pouquinho mais: 2014 pode ser apontado como o último ano em que houve um efetivo interesse das bandas da Amazônia em terem seu material divulgado no meu blog Som do Norte, no ar desde 2009 e meu principal trabalho desde então. Esse ainda era o clima no começo de 2015, o que me animou a lançar a série de entrevistas Café com Tapioca. Porém, ao longo do primeiro semestre, registrei uma série de recusas de músicos a convites de entrevistas - nunca uma recusa direta, claro, mas aquele lance de dizer que está muito ocupado, ou - o mais usado - a simples ausência de resposta mesmo, o popular vácuo que a moçada fala. Isto me levou já em junho de 2015 a publicar uma nota explicando porque o blog estava sendo menos atualizado do que de costume. E de fato, a partir daquele mês, nunca o Som do Norte teve mais de 7 posts por mês - no auge do blog (2009-14), às vezes essa cifra era atingida em 2 dias. 

Bueno, e o que isso tem a ver com meu trabalho como fotógrafo e cineasta? Tudo. Na medida em que notei que as bandas optavam por falar diretamente com seu público através das redes sociais, entendi que era o momento de não só fazer o mesmo, como também de pegar a estrada para mostrar meu trabalho - especificamente a exposição itinerante com fotos d'As Tias do Marabaixo e os curtas da mesma série, lançados entre fevereiro e abril de 2015. Então em junho de 2015 peguei um navio no porto de Santana (AP) rumo a Belém, iniciando a viagem em que percorri 11.920 km pelo Brasil em cinco meses. Estive nos estados do Pará, Tocantins, Bahia, Goiás, Mato Grosso, Rondônia e Amazonas; em três deles, consegui exibir meus curtas e expor minhas fotos, tudo isso sem edital nem patrocínio, chegando nos lugares com a cara e a coragem. Além disso, durante a viagem criei e lancei uma nova atividade, a Oficina de Cinema Independente. Isto com certeza me deixou muito confiante para o passo seguinte, que iniciei antes mesmo de retornar a Macapá em novembro de 2015 - a ideia de publicar o livro com uma seleção de fotos que fiz d'As Tias do Marabaixo.

Anunciei em dezembro a pré-venda, pela internet, do livro, numa campanha que foi até janeiro de 2016. Apenas duas pessoas se interessaram pela possibilidade de adquirir o livro antes do lançamento, o que evidentemente estava muito longe de permitir cobrir os custos de uma edição. Em função disto, lancei a campanha Vamos Sonhar Juntos, oferecendo ensaios a preços promocionais para qualquer ponto do Brasil (a viagem do ano anterior me sinalizava que isto era viável). As inscrições foram de fevereiro a abril de 2016 e ao final delas eu tinha 30 pessoas interessadas, em 16 estados do país (apenas da Região Sul não houve inscrição).

Iniciada a viagem em abril, começou uma rotina nada positiva - eu chegava na cidade onde havia uma ou mais pessoas inscritas, informando-as da minha presença e já querendo marcar o(s) ensaio(s). Quase sempre a resposta era que a pessoa iria pensar, ou que não poderia naquela data (que eu já havia comunicado previamente), ou que achava o valor do ensaio caro (sendo que ela já soubera do valor ao se inscrever). Isto aconteceu comigo em São Luís, João Pessoa e Maceió, e me levou a desistir de continuar a viagem. Contatei as pessoas inscritas dos demais estados, informando do ocorrido e, no geral, a maioria das pessoas me apoiaram. 

A decisão de suspender a viagem aconteceu já na metade de junho, em Maceió; até ali, eu havia feito alguns ensaios da campanha em Macapá e Belém, apenas. Novamente o arrecadado não permitia que eu editasse o livro. Mas enfim, não culpo quem desistiu do ensaio sem informar previamente; o principal responsável por este fracasso fui eu mesmo, ao montar um plano que só iria funcionar se ninguém desistisse (ou houvesse, o que seria natural, alguma desistência aqui e ali), mas que evidentemente desmoronaria se houvesse uma sequência de cancelamentos, como acabou ocorrendo (em minha defesa, posso alegar que jamais imaginaria tal sequência! rir pra não chorar). 

Enfim, era metade de junho e eu estava em Maceió. O compromisso seguinte agendado era o ensaio com Bruna Xavier, em Mato Grosso, no mês de agosto. Optei por ficar na capital alagoana nesse intervalo de tempo (sairia bem mais caro retornar a Macapá e de lá ir para Rondonópolis). Foi exatamente aí que aproveitei para lançar este blog, ideia que havia me ocorrido em maio, quando estava no Maranhão. 

Foto do ensaio com Bruna Xavier,
feito em agosto em Rondonópolis-MT

O lançamento deste blog, em junho, acabou oficializando, de alguma forma, a predominância do meu trabalho como fotógrafo sobre o lado jornalista, o que, extra-oficialmente, já se desenhara um ano antes, com aquela nota no Som do Norte e o início da viagem dos 11.920 km. Mas, longe de significar uma aposentadoria precoce como jornalista (muitos risos), na verdade este blog acabou promovendo um encontro das duas profissões, pois a cada post do trabalho do fotógrafo, está o jornalista informando onde a foto foi tirada, o que está ali retratado, resultando até em textos longos, por vezes. 

O blog começou com um volume modesto de acessos, não passando de 2 mil/mês até agosto, mas desde setembro vem se mantendo na faixa de 6 a 7 mil acessos/mês, o que considero incrível numa fase em que as redes sociais predominam. 

Retornando a Macapá em setembro, priorizei o envio de projetos a editais culturais, obtendo algumas vitórias. Meu curta Tia Biló foi escolhido para abrir a Mostra Cine Redemoinho, em Angra dos Reis (RJ), em novembro. E, já no finalzinho do ano, o projeto As Tias do Marabaixo foi selecionado para a programação 2017 da Casa de Cultura Mario Quintana, em Porto Alegre. 

Em relação à apresentação de obras minhas durante o ano, posso citar a exibição do curta Tia Biló para os alunos da segunda Oficina de Cinema Independente, que realizei em abril em Belém. Já em junho, cenas de Tia Zezé no Encontro dos Tambores foram incluídas em entrevista que concedi à TV Cultura do Pará, sobre os sete anos que o Som do Norte completou em agosto. E fotos minhas estiveram expostas no Porto Velho Shopping em novembro. 

Embora no geral os editais voltados às artes tenham diminuído após o final do governo Dilma, nas áreas de cinema e fotografia essa redução não aconteceu. Até porque os profissionais brasileiros destas linguagens têm a oportunidade de se inscreverem em editais lançados no exterior também. :) 

  • Então fica aqui essa dica: se você trabalha com artes, em especial fotografia e cinema, garimpe editais na sua área. Sempre é possível encontrar boas oportunidades.  


Outra providência que adotei, esta a partir de outubro, foi criar perfis em sites profissionais para fotógrafos (alguns deles também aberto a modelos, permitindo que ambas as categorias dialoguem diretamente), a maioria do exterior. Isto tem feito minhas fotos serem vistas e comentadas por profissionais renomad@s que muitas vezes não têm referência alguma anterior sobre os temas que retrato em meu trabalho - mas que com certeza entendem de fotografia! ;)

  • Temos então a segunda dica: se você fotografa, não divulgue seu trabalho apenas no Facebook, onde ele será visto, na maior parte das vezes, apenas por seus amigos (e não necessariamente seus amigos se tornarão seus clientes). Crie seu blog (que não tem custo) ou site e também publique no Instagram. Cadastre-se também em sites que tenham a ver com seu nicho (se seu foco for trabalhar com modelos internacionais, a dica é o Model Mayhem; se você quiser focar em modelos inglesas, o Purple Port). 



14/01/2017

Coisas do Mundo: Voando baixo



Há exatos 3 anos, em 14 de janeiro de 2014, fiz esta foto na capital do Pará, que publiquei já à noite em meu Facebook pessoal com a seguinte legenda, que inicia com uma interjeição bem paraense:

Mas sim, e qual era desse avião que ficou rondando Belém hoje de manhã?? 
Até hoje não descobri (risos).

Não há edição na imagem, o avião de fato estava voando muito baixo, com certeza os moradores do segundo prédio à esquerda da foto poderiam ver a parte superior da aeronave, o que é raríssimo. 



13/01/2017

Belezas Naturais: Bem-te-vi confiante



Em 31 de dezembro de 2016, postei no Instagram esta foto, feita em Belém, com a legenda:

Não importa como foi 2016. 
Entremos em 2017 de bico erguido!






09/01/2017

A Semana nº 22


  • Em 26 de dezembro de 2016, a Casa de Cultura Mario Quintana (Porto Alegre) anunciou o resultado da 1ª Chamada Pública/2017. Entre os selecionados (veja aqui a lista), está meu projeto As Tias do Marabaixo, na categoria Audiovisual, contemplando tanto a exibição dos cinco curtas quanto a exposição das 18 fotografias. Ainda não há confirmação da data em que o projeto irá acontecer na capital gaúcha, assim que tiver mais informações aviso aqui. Será a primeira vez que o projeto será apresentado na Região Sul, e a estreia de meus filmes em minha terra natal.

CCMQ - foto: Gabriela Fritsch



07/01/2017

Coisas do Mundo: Surpresa



Em pleno Largo do Pelourinho, em frente à Casa de Jorge Amado, a menina fica surpresa ao ver os instrumentos deixados por músicos no intervalo de uma apresentação. 

A surpresa seria pelos instrumentos em si, ou pela forma harmônica pela qual estavam dispostos? Foi a capa do CD, ou o disco em si (esse objeto-produto-cultural já não tão presente assim nas nossas vidas)? 

Jamais saberei. 

:)

06/01/2017

Ensaio de janeiro: Mary Cumaru

OBS: Este Ensaio deveria ter entrado no ar em 23 de dezembro, o que não foi possível porque na ocasião meu notebook estava (pra variar) numa revisão. Pra completar, quando ele foi liberado (enfim!), foi em meio a meu recesso de virada de ano. De modo que apenas hoje, findo este período de férias, é que publico este conjunto de fotos inéditas. Espero que vocês considerem que valeu a pena esperar! (Fabio Gomes) 

***

Cliquei Mary Cumaru no Complexo do Araxá, Macapá, em 24 de novembro de 2016. O lugar é muito lindo, às margens do Rio Amazonas, na zona sul da capital, e não muito explorado como locação de ensaios fotográficos. 

Mary tem 27 anos e (acreditem) não é modelo profissional, tendo feito recentemente algumas campanhas para lojas de roupas de Macapá, atividade que desenvolve em paralelo com sua dedicação aos negócios da família.







A meu pedido, Mary assim se retratou neste texto:

"Mary Cumaru, mãe da Maytê Cumaru. Gosto de coisas simples e diferentes, Tenho uma vida bem urbana mas amo natureza. Dedico o tempo livre pra família e amigos. Sou uma pessoa comum com gostos estranhos (risos)."





A versão em vídeo deste ensaio no YouTube tem 11 imagens, pois incluí a foto de Mary como Modelo da Semana, publicada aqui em 15 de dezembro.